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9 de fevereiro de 2012

"Fazia tempo..."

     Todo mundo lhe perguntava o que ele fazia. Não viam razão naquilo e, mal sabiam que nem ele mesmo via quando começou a fazê-lo. É como a certeza que hoje temos e que ainda ontem era dúvida, das mais pertinentes.
     Acordava cedo, tomava seu café correndo e já ía trabalhar. Sua motivação era o que seus clientes poderiam viver a mais com o que ele produzia. Eles não sabiam, mas ele sempre se doava pra eles. Exatamente a quantidade de tempo que ele produzia, era o tempo que perdia para produzí-lo. Mas nunca tudo ficava quite, pois o produto nunca ficava para ele. Na verdade, ele se recusava de ficar com sequer um. Ele dizia que o tempo que diziam a ele que era perdido fazendo tempo, não era perdido! Como seus clientes poderiam comprar mais tempo e viver coisas que não poderiam normalmente se aquele tempo produzindo tempo fosse realmente um tempo perdido? Parecia confuso e pra alguns ainda parece se realmente se pensa perda tempo, o tempo que não beneficia um só. Nada do que ele fazia era pra ele. Ele não se importava em ter tempo. Aliás, se importava sim. Mas ter tempo pra fazer tempo pros outros. Pra pais de família que trabalhavam demais e não ficavam com seus filhos, pra casais que viviam longe e que conseguiam com mais tempo passar férias juntos, pra pessoas que viram no final da vida tudo de inútil que fizeram e conseguiram um tempinho a mais pra se sentirem aliviadas. Isso o motivava: o outro!
     A mesma criança que confirmou a ele que seu trabalho era muito útil, dizia quando a perguntavam a cerca daquele senhor, agora já adulta: "Mas afinal o que é que ele fazia?", "Ele fazia tempo...". No dia em que o pai dessa então garota comprou tempo para passar com ela, ela tanto não se conteve que deu um beijo no senhor e disse "Obrigada por dar mais tempo pro meu pai ficar comigo". O pai todo adulto disse à ela "Mas ele não me deu filha, eu comprei dele esse tempo", e como se o único conhecimento e real discernimento das coisas só ficasse entre olhares infantis e idosos, o senhor e a criança sorriram.
     Hoje já é difícil encontrar discípulos desse senhor, que só se interessava por seu próximo ter mais tempo. Hoje até existem fazedores de tempo, mas para eles mesmos usufruírem. Egoísmo? Já suavizaram a verdade, mas a questão é: alguém se sacrificava para dar mais ao próximo.

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